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Atividades

A Fundação Christiano Rosa, desde sua instituição, em 1997, vem promovendo atividades artístico-culturais diversas. A partir de 1999, quando inaugurou o “Espaço Cultural ‘Célia Ap. Rosa’”, lá tiveram lugar exposições fotográficas, de artes plásticas, de presépios, palestras, cursos de capacitação em meio ambiente e recursos hídricos, apresentações de corais, teatro, música e lançamentos de livros.

Atividades realizadas recentemente

As atividades que a Fundação realizou aparecem aqui, das mais recentes para as mais antigas. Para ver o que vem por aí, acesse a Agenda.

Ainda não há atividades registradas nesta lista. Assim que as atividades da Agenda acontecerem, a equipe as envia para cá.

Atividades anteriores

Registro das atividades promovidas pela Fundação antes da criação deste site.

JORNADA DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO DE PIQUETE,SP – 19 DE NOVEMBRO DE 2022

A Jornada do Patrimônio Histórico de Piquete 2022 é uma iniciativa do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico e Paisagístico de Piquete (COMDEPHAAPPI), com o apoio da Fundação Christiano Rosa e visa a apresentar os prédios que têm valor histórico, tombados ou não, localizados no limite urbano de Piquete. Foi pensada com a intenção de divulgar a importância desse patrimônio para a comunidade e conscientizar sobre a necessidade de se preservar esses bens de importância singular, que pertencem a todos os piquetenses. Durante o trajeto, percorrido a pé, a apresentação das informações sobre os prédios visitados tem o objetivo de divulgar também os conceitos básicos sobre patrimônio, memória, identidade, preservação e tombamento e despertar o interesse de todo cidadão por esse rico patrimônio.

Vista parcial da cidade de Piquete. Foto do final da década de 1950.
Vista parcial da cidade de Piquete. Foto do final da década de 1950.

A seguir estão listados os prédios de valor histórico visitados, com seus dados e uma coleção de imagens que fazem parte do Arquivo Pró-Memória da FCR.

Estação Ferroviária “Estrella do Norte”

Um pouco sobre a Estação Ferroviária “Estrella do Norte”, inaugurada em 1909, atendia, especialmente, aos moradores da Vila Militar da Estrela.

A Estação Ferroviária Wenceslau Braz

Poucos em nossa cidade sabem que a Estação Ferroviária Estrela do Norte, do ramal férreo Lorena-Piquete, já foi denominada “Estação Wenceslau Braz”.

Essa mudança de nome ocorreu em 1918 e, felizmente, não pegou, permanecendo o nome ainda hoje consagrado – “Estrella do Norte” –, referente à antiga fazenda de café comprada pelo governo federal, em julho de 1905, para a construção da Fábrica de Pólvoras sem Fumaça.

A prática de atribuir nome de figuras importantes de uma determinada comunidade a bens e logradouros públicos é bastante comum no Brasil como forma de prestar homenagem a tais pessoas. Essa prática reflete o desejo de perpetuar na memória das gerações o nome dos que, de alguma forma, contribuíram para o benefício de todos. No entanto, um problema detectado em muitos municípios brasileiros é a mudança constante de nomes de logradouros – praças, ruas, avenidas, monumentos, etc… Muitas vezes, essa mudança de denominação serve apenas aos interesses dos mandatários políticos do momento, desprezando-se, em consequência, a memória, a história e a tradição da localidade.

Quanto à mudança do nome da Estação ferroviária Estrella do Norte, foi um ato intempestivo, impensado. Não que o iminente mineiro de Brasópolis, Wenceslau Braz Pereira Gomes, não merecesse uma homenagem. Presidente da República no período de 1914 a 1918, esteve em Piquete em visita à Fábrica de Pólvora sem Fumaça, na manhã de 20 de maio de 1918. Poucos meses antes, em 26 de outubro de 1917, o Brasil havia entrado oficialmente na Primeira Guerra Mundial. A Fábrica de Piquete, pela importância estratégica, foi comunicada de imediato, posta em prontidão com vigilância redobrada e teve sua produção aumentada significativamente, de maneira que, em dezembro daquele ano, um lote de pólvora de base simples foi enviada pela primeira vez para a Marinha.

Quando de sua visita à Fábrica, o Presidente Wenceslau Braz se fez acompanhar pelos Ministros da Guerra, Marechal José Caetano de Faria, e da Viação e Obras Públicas, Tavares de Lyra; pelo Diretor de Material Bélico, General Feliciano Mendes de Morais, além do Diretor da Estrada de Ferro Central do Brasil, Dr. Aguiar Moreira, e de membros das Casas Militar e Civil da Presidência da República. Foram recebidos com todas as formalidades, percorreram todas as oficinas e dependências da Fábrica, “recebendo a melhor impressão”, conforme exprimiu o Presidente em eloquente e afetuosa alocução que dirigiu a todo o pessoal da Fábrica por ocasião do almoço que lhe foi servido, no Cassino dos Oficiais, na Vila da Estrela, antes de seu regresso, às 14 horas.

Voltada para a defesa nacional, a importância estratégica da Fábrica levou o governo federal a determinar, de imediato, a construção da Estrada de Ferro Piquete-Itajubá, não só para escoamento de produtos, mas também para o transporte de tropas militares, com a finalidade de garantir a segurança dessa indústria bélica.

Logo após a honrosa visita presidencial e das altas autoridades governamentais, em aditamento ao artigo 2º do boletim nº 44 de 21 de maio de 1918, da Diretoria da Fábrica, foram dados os nomes de “Dr. Wenceslau Braz”, “Tavares de Lyra”, “General Moraes” e “Aguiar Moreira”, respectivamente, às estações e paradas “Estrella do Norte”, “Parayba”, “Limeira” e “Bela Vista”.

Por pouco tempo, em alguns documentos oficiais esses nomes foram registrados, voltando naturalmente a ser escritos os nomes consagrados quando da inauguração do ramal férreo Lorena-Benfica, em 15 de setembro de 1906.

Antônio Carlos Monteiro Chaves

Publicado no informativo O ESTAFETA, edição 147, de Abril de 2009.

Hospital da FPV

A inauguração do Hospital da FPV

Um evento da história de Piquete que ficou na memória de muitos antigos moradores foi a inauguração do Hospital da FPV ocorrida em 28 de agosto de 1948. Essa obra foi a consecução de um dos maiores anseios dos piquetenses, concretizada pela Direção da Fábrica Presidente Vargas, ciente da falta de políticas públicas municipais voltadas para a saúde da população. Desprovida de recursos pecuniários e de técnicos habilitados, a municipalidade se via incapaz de proporcionar aos moradores atendimento nessa área. Nos anos de 1940, a mortalidade infantil em Piquete era elevada: uma vergonha para o município, cuja população urbana era de pouco mais de seis mil habitantes. Desses, aproximadamente dois mil e trezentos eram servidores da Fábrica; os que não o eram dela dependiam.

Na cidade havia um déficit de moradias. As pouco mais de mil habitações existentes eram de baixo padrão construtivo. Não havia serviços próprios de água e luz. A Fábrica é que lhes cedia o excedente. A rede de esgoto domiciliar era parcial e os dejetos, sem tratamento, eram lançados no rio que atravessa a cidade.

Para sorte dos piquetenses, em fevereiro de 1942 assumiu a Direção da Fábrica o general Waldemar Brito de Aquino, homem sensível, humano, ciente das carências do município, que aqui chegou, pela primeira vez, em 1932. Aquino, auxiliado pelo tenente coronel José Pompeu Monte, criou o Serviço de Assistência Social da Fábrica, um dos mais bem organizados do país. Com seus diferentes departamentos, em poucos anos modificou a fisionomia social e urbana da cidade. Deu continuidade aos trabalhos iniciados por seu antecessor, general Gomes Carneiro, construindo vilas operárias e escolas profissionalizantes. Entre outras grandes obras, a que marcou sua gestão foi a especial atenção à saúde. Criou um serviço modelar com atendimento pré-natal, maternidade e puericultura, com recursos exclusivos da Fábrica, sem ônus para os cofres da nação. O trabalho em prol das crianças iniciava-se com o pré-natal; assistia-se ao seu crescimento e à sua alimentação, zelando-se pelas mães, que eram também orientadas nas questões de saúde. Dava-lhes, ainda, formação, com orientação vocacional por meio de ensino técnico-profissional.

Além disso, havia uma grande enfermaria, construída em 1937, mas com déficit de leitos. Para completar a assistência na área de saúde faltava um hospital modelar. Em 1943 teve início, então, a construção do sonhado hospital.

Assim, foi com grande expectativa que a população, naquela fria manhã de agosto de 1948, se postou em frente do majestoso edifício esperando a chegada do Presidente da República, que viria inaugurá-lo. Eram dez horas quando, acompanhado de sua comitiva – da qual fazia parte o Ministro da Guerra, membros do gabinete civil e militar e outras altas autoridades –, o Presidente Eurico Gaspar Dutra chegou a Piquete, por via aérea. Aguardava-o o Diretor da FPV, general Waldemar Brito de Aquino, e toda a sua oficialidade, o governador do Estado, Dr. Adhemar de Barros, o prefeito, Luis Vieira Soares, o bispo diocesano, D. Luiz Gonzaga Peluzo, o chefe do Estado Maior, general César Obino, o Diretor da Intendência do Exército, general Escarcela Portela, o Diretor de produção, general Fiúza de Castro, o comandante da 2a Região Militar, general Renato Paquet, os generais Agra Lacerda e Raulino de Oliveira, numerosos oficiais de diferentes patentes, e todo o operariado da Fábrica. Após uma salva de tiros houve desfile do Destacamento da Fábrica, do Contingente de Vigilância e de operários e escolares.

Após o desfile, houve a inauguração solene do hospital, com bênção dada pelo bispo diocesano. Seu diretor, o capitão médico Otávio Tibúrcio Ferreira, saudou o Presidente Dutra e historiou a obra, passando-lhe, a seguir, a chave do edifício, para que abrisse suas portas para visitação. Inaugurado, o Hospital da Fábrica passou a ser administrado por Irmãs Salesianas e por muitos anos foi referência em atendimento de saúde na região.

Antônio Carlos Monteiro Chaves

Publicado no informativo O ESTAFETA, edição 139, de Agosto de 2008.

Praça Duque de Caxias

A Praça Duque de Caxias

Marco na paisagem urbana piquetense, o conjunto arquitetônico formado pela Praça Duque de Caxias é um amplo espaço cívico que há setenta anos influencia na qualidade de vida da população, enfocando aspectos físicos, ambientais e de uso. Construída pela Fábrica Presidente Vargas, sua inauguração ocorreu na manhã do dia 8 de novembro de 1952. Esse foi mais um grande presente recebido pelos piquetenses.

Durante os dias que antecederam o evento, enquanto os operários da quarta divisão da Fábrica se esmeravam nos detalhes finais da obra e no ajardinamento, a população, numa ansiedade natural, esperava pela festa. O diretor da FPV, Cel. Almir Autran Franco de Sá, convidou para inaugurar a nova praça o general Waldemar Brito de Aquino: justa homenagem a este militar responsável por grande parte das obras sociais desenvolvidas em Piquete nas décadas anteriores, durante o período em que foi diretor daquela instituição fabril. Durante sua gestão, com a colaboração do major José Pompeu Monte, o gen. Aquino desenvolveu um projeto educacional que transformou Piquete e o tornou referência nacional: criou um departamento educacional com Ginásio, Escola Industrial, Escola Agrícola, Escola Normal e Jardim da Infância. Construiu, também, o hospital, vilas operárias, e foi o responsável por um amplo projeto de urbanização da cidade. Daí a importância de sua presença ao evento.

Querido pela população, seu retorno a Piquete era aguardado com expectativas. No dia da inauguração, desde as primeiras horas da manhã, a população se dirigia para o local. Às 9h, a Praça, toda enfeitada, se agitava devido aos populares que vinham de diferentes pontos do município. Em formatura, lá se encontravam os praças do Contingente e os alunos do Departamento Educacional, assim como representações do operariado. A oficialidade, autoridades civis e religiosas, e também seus familiares davam um tom elegante à festividade.

O general Waldemar Brito de Aquino, ao chegar ao local, foi recebido pelo coronel diretor e seus oficiais, e encaminhado para o interior do “Gymnasium de Esportes Duque de Caxias”, que se encontrava repleto de visitantes. Essa obra, devido ao seu tamanho, desde sua construção tornou-se conhecido como Elefante Branco. Sob aplausos, o general Aquino descerrou a placa de bronze dando por inaugurado o prédio. Discursaram na ocasião o cel. Almir Autran Franco de Sá, o tenente Bartholomeu Siqueira de Moraes Ferreira e, finalmente, o general Aquino. Seguiu-se, logo após, a cerimônia de inauguração da Praça Duque de Caxias, alinhando-se toda a oficialidade no coreto de alvenaria, em cujo centro se erigia o busto do patrono do Exército Brasileiro. Hasteada a Bandeira, depois da continência de estilo, desfilaram, com grande entusiasmo, os pracinhas do Contingente e os alunos e alunas do Departamento Educacional. Do programa desportivo inaugural do “Elefante Branco” constaram partidas de basquete e voleibol, em campeonato, com alunos do Departamento Educacional, participando os ginásios diurno e noturno, com disputa de valiosos prêmios.

A “Pracinha”, como se tornou conhecida, é um amplo espaço formado pelo Pórtico da FPV, “Cine Estrela do Norte”, “Grêmio General Carneiro” e “Grêmio Duque de Caxias”. Ao centro, um coreto ladeado por pérgulas e um bem cuidado jardim. Esse conjunto arquitetônico singular é único no Vale do Paraíba e exemplo de edificação de estilo eclético. É marco de uma época. O caráter simbólico dessa praça e sua ligação com o operariado, os estudantes e toda a população a tornaram um símbolo dos piquetenses. Grandes encontros cívicos foram nela realizados, atraindo grande massa popular, como em 15 de março de 1959, cinquentenário da Fábrica, quando um desfile cívico-militar contou com a presença de toda a população. O mesmo afluxo se deu em 15 de junho de 1991, centenário de Piquete, quando foi palco de memorável desfile.

Antônio Carlos Monteiro Chaves

Publicado no informativo O ESTAFETA, edição 130, de Setembro de 2007.

Natal na Pracinha

Dar voltas na pracinha: costume trivial.

Os moços ficavam parados e as moças rodavam. Cortejar, flertar, paquerar nas noites de sábado e domingo era comovente.

Quando se aproximava o Natal, a Pracinha alterava-se sobejamente. Em lugar das voltinhas, um mundo mágico abria-se às vistas da população.

A Praça Duque de Caxias transformava-se numa maravilhosa e acolhedora cidade natalina, para onde todos convergiam.

Papai Noel, trenzinho, Sítio do Pica-Pau Amarelo, árvore enorme de Natal e a troca de sorrisos entre as pessoas explodia noite adentro.

A pracinha era envolvida por manifestações típicas, as canções ao Menino Jesus acompanhadas por instrumentos tradicionais enraizavam-se em nossos corações.

O espetáculo pirotécnico ficava para a noite de Natal. Chuva de prata, morteiros e cachoeiras misturavam-se com os clarões dos astros.

Os fogos e luzes são símbolos de ternura e vida longa.

As crianças, principal objetivo dos organizadores, traziam os semblantes felizes. O presente delas era estar na pracinha, participando, ganhando balas do Papai-noel, abraços e beijos da Emília.

Naquele tempo havia paz nas pessoas, no ar, nas coisas que nos rodeavam. As festas transcorriam desejosas, alegres e tranquilas.

O presépio era num dos canteiros da pracinha, o Menino Jesus deitado na manjedoura e os Reis Magos lhe oferendando.

Se pudesse, escreveria um bilhete ao Papai Noel pedindo um presente… Ah, se ele me desse de volta as festas natalinas na pracinha!

Edival da Silva Castro

Publicado no informativo O ESTAFETA, edição 95 de Dezembro de 2004.

Ginásio de Esportes Duque de Caxias

O Ginásio de Esportes Duque de Caxias, o nosso Elefante Branco

Marco na paisagem urbana piquetense, o conjunto arquitetônico formado pela Praça Duque de Caxias e o Ginásio Duque de Caxias é um amplo espaço cívico que há setenta anos influencia na qualidade de vida da população, enfocando aspectos físicos, ambientais e de uso. Construído pela Fábrica Presidente Vargas, sua inauguração ocorreu na manhã do dia 8 de novembro de 1952. Esse foi mais um grande presente recebido pelos piquetenses.

Durante os dias que antecederam o evento, enquanto os operários da quarta divisão da Fábrica se esmeravam nos detalhes finais da obra e no ajardinamento, a população, numa ansiedade natural, esperava pela festa. O diretor da FPV, Cel. Almir Autran Franco de Sá, convidou para inaugurar a nova praça o general Waldemar Brito de Aquino: justa homenagem a este militar responsável por grande parte das obras sociais desenvolvidas em Piquete nas décadas anteriores, durante o período em que foi diretor daquela instituição fabril. Durante sua gestão, com a colaboração do major José Pompeu Monte, o gen. Aquino desenvolveu um projeto educacional que transformou Piquete e o tornou referência nacional: criou um departamento educacional com Ginásio, Escola Industrial, Escola Agrícola, Escola Normal e Jardim da Infância. Construiu, também, o hospital, vilas operárias, e foi o responsável por um amplo projeto de urbanização da cidade. Daí a importância de sua presença ao evento.

Querido pela população, seu retorno a Piquete era aguardado com expectativas. No dia da inauguração, desde as primeiras horas da manhã, a população se dirigia para o local. Às 9h, a Praça, toda enfeitada, se agitava devido aos populares que vinham de diferentes pontos do município. Em formatura, lá se encontravam os praças do Contingente e os alunos do Departamento Educacional, assim como representações do operariado. A oficialidade, autoridades civis e religiosas, e também seus familiares davam um tom elegante à festividade.

O general Waldemar Brito de Aquino, ao chegar ao local, foi recebido pelo coronel diretor e seus oficiais, e encaminhado para o interior do “Gymnasium de Esportes Duque de Caxias”, que se encontrava repleto de visitantes. Essa obra, devido ao seu tamanho, desde sua construção tornou-se conhecido como Elefante Branco. Sob aplausos, o general Aquino descerrou a placa de bronze dando por inaugurado o prédio. Discursaram na ocasião o cel. Almir Autran Franco de Sá, o tenente Bartholomeu Siqueira de Moraes Ferreira e, finalmente, o general Aquino. Seguiu-se, logo após, a cerimônia de inauguração da Praça Duque de Caxias, alinhando-se toda a oficialidade no coreto de alvenaria, em cujo centro se erigia o busto do patrono do Exército Brasileiro. Hasteada a Bandeira, depois da continência de estilo, desfilaram, com grande entusiasmo, os pracinhas do Contingente e os alunos e alunas do Departamento Educacional. Do programa desportivo inaugural do “Elefante Branco” constaram partidas de basquete e voleibol, em campeonato, com alunos do Departamento Educacional, participando os ginásios diurno e noturno, com disputa de valiosos prêmios.

A “Pracinha”, como se tornou conhecida, é um amplo espaço formado pelo Pórtico da FPV, “Cine Estrela do Norte”, “Grêmio General Carneiro” e “Grêmio Duque de Caxias”. Ao centro, um coreto ladeado por pérgulas e um bem cuidado jardim. Esse conjunto arquitetônico singular é único no Vale do Paraíba e exemplo de edificação de estilo eclético. É marco de uma época. O caráter simbólico dessa praça e sua ligação com o operariado, os estudantes e toda a população a tornaram um símbolo dos piquetenses. Grandes encontros cívicos foram nela realizados, atraindo grande massa popular, como em 15 de março de 1959, cinquentenário da Fábrica, quando um desfile cívico-militar contou com a presença de toda a população. O mesmo afluxo se deu em 15 de junho de 1991, centenário de Piquete, quando foi palco de memorável desfile.

Antônio Carlos Monteiro Chaves

Publicado no informativo O ESTAFETA, edição 130, de Setembro de 2007.

Quando o Elefante era branco…

Em oito de novembro passado o Elefante Branco completou sessenta e um anos de existência. Parado e esquecido, ficaram as lembranças… Lembranças dos grandiosos bailes, das explosivas festas juninas, dos badalados desfiles de Mini Miss, dos competitivos jogos de basquete, vôlei e futebol de salão…

O Elefante Branco sempre teve suas portas abertas para eventos esportivos, culturais e sociais que envolviam a cidade de Piquete. Foi sede do primeiro e único campeonato de xadrez, que contou com mais de vinte duplas de enxadristas e sagrou campeão o Vanderlei Junqueira.

Quando a Associação dos Ex-Alunos deixou de funcionar à Praça da Bandeira, nº 100, foi instalar-se na parte de cima do Elefante Branco, espaço que logo ficou conhecido como Elefantinho.

O momento triste que o Elefante Branco registrou aconteceu em data de 4 de janeiro de 1958, quando serviu de velório para o corpo da saudosa Cecília Cruz, vitimada num acidente rodoviário na BR459, no trecho pertencente à Minas Gerais, na chamada “Curva do S”.

A cidade de Piquete sem o Elefante Branco fica tristonha, sem graça… Perde o foco do entretenimento.

Edival da Silva Castro

Crônica publicada no informativo O ESTAFETA, Edição 207, de Abril de 2014

Cine Estrela do Norte

A inauguração do Cine Estrela do Norte

No dia 7 de setembro de 1944, às 19h30min, aconteceu a inauguração do Cine Estrela do Norte. Este foi um acontecimento memorável na história de Piquete. Veio no bojo de outras grandes obras sociais promovidas pela Fábrica Presidente Vargas, voltadas para o operariado: Vila Duque de Caxias, Parque Zoológico Filisbina Rosa e a Escola Industrial Feminina, mais tarde Escola Normal. A inauguração do Cine Estrela concorreu para a mudança do centro social de Piquete, que se transferiu das proximidades do Cine Glória para as da Praça da Bandeira.

O Cine Estrela norteou a criação da Praça Duque de Caxias, o Ginásio de Esporte e Grêmio Duque de Caxias, além do Pórtico, que delimitava a área da Fábrica. Esse conjunto harmonioso tornou-se referência arquitetônica da cidade, que experimentava um surto de progresso àquela época.

O prédio do novo cinema foi adaptado e ampliado a partir de um imenso galpão construído como depósito para abrigar o maquinário da planta fabril de base dupla, inaugurada em 8 de dezembro de 1942. Com o espaço desocupado, o major José Pompeu Monte, então chefe da Divisão de Obras da Fábrica, voltado sempre para as questões sociais do operariado, idealizou e construiu o cinema e, anexo, o Grêmio General Carneiro, que até então se encontravam instalados provisoriamente à rua Major Carlos Ribeiro.

Em estilo neocolonial, com arcadas e passadiço, o Cine Estrela, por mais de quatro décadas, proporcionou entretenimento, cultura e informação aos piquetenses. Ditou moda e comportamento, copiados via Hollywood. Ir ao cinema significava refinar o gosto e se enriquecer culturalmente. Nas telas do Cine Estrela as estreias nacionais eram projetadas antecipando todas as salas valeparaibanas. Isso graças ao Cassino dos Oficiais, na Vila da Estrela, para onde vinham os lançamentos diretamente do Rio de Janeiro. Esses filmes eram passados simultaneamente no cinema dos operários.

A tão esperada abertura da nova sala de espetáculos aconteceu numa quinta-feira, feriado nacional pelo Dia da Pátria. No programa de estreia a direção do “Círculo de Oficiais e Assemelhados da FPV” participava ao público a inauguração daquela casa de diversões e agradecia à “vontade inabalável e crescente do estimado diretor coronel Waldemar Brito de Aquino que tudo tem feito para favorecer a classe operária de Piquete”. Com a sala repleta de convidados, breves palavras foram pronunciadas pelo capitão Ário Rodrigues Ribas, diretor do Círculo de Oficiais e Assemelhados. Logo após, o coronel Aquino, diretor da Fábrica, também discursou, dando por inaugurado o novo cinema. Em seguida, numa ampla tela, com acústica especial e confortáveis poltronas, num ambiente escurecido por pesadas cortinas de cor púrpura que cobriam as janelas do prédio, apagaram-se as luzes e foi iniciada a sessão inaugural. A programação cinematográfica constou de um noticiário nacional, seguido do “Voz do Mundo – últimas notícias da Europa em Guerra”. Finalmente, o tão esperado filme da noite – “Damasco”, “gigantesca superprodução da RKO, com o desempenho do querido astro George Sanders”.

Ao término da esperada sessão, aplausos ininterruptos que demonstravam o contentamento da plateia, que, empolgada, não queria deixar o espaço. Haveria, porém, às 21h45min nova sessão, que já estava com ingressos esgotados. A emoção dos que deixavam a sala só aumentava a ansiedade dos que esperavam pela segunda sessão…
Nos dois dias seguintes, a programação constava de “Horas de Tormento”, com Betty Davis. No domingo, “Marrocos”, com “o aplaudido” Gary Cooper. Era o início de um longo período de muitos acontecimentos e diversão para os piquetenses.

Antônio Carlos Monteiro Chaves

Publicado no informativo O ESTAFETA, edição 212, de Setembro de 2014.

Ir ao cinema

Ir ao cinema em Piquete era estar ligado aos acontecimentos, receber informações, comprazer-se com obras de arte, degustar prazeres visuais, assimilar modelos e observar que o sistema de vida norte-americano (após 1945, final da II Guerra Mundial) era o fim almejado.

Vestia-se, penteava-se, agia-se, pensava-se segundo esse famoso slogan: “o american way-of-life” (sistema americano de vida). Com ele, entre outras coisas, veio o chiclete, e, de lambuja, Carmem Miranda, como baiana estilizada, com um samba com sotaque norte-americano, no qual se identificavam vários ritmos latino-americanos, nenhum puro, e todos subliminarmente “arranjados” para o gosto e os interesses do Tio Sam.

E Carmem Miranda incorporou o Zé Carioca, o Bando da Lua e o que era preciso e aprovado pelos estúdios hollywoodianos. Fez fortuna e passou a integrar o “star system” provocando orgulhos pátrios e invejas arrasadoras. Aguentou-se até o final, fincando pé entre as mansões de Beverly Hills, o bairro estrelado de Los Angeles. Nos cinemas piquetenses ela pontificava ao lado dos grandes nomes arrancando suspiros, lágrimas, sorrisos, gargalhadas, aceitações, conivências, repúdios e toda a sorte dos humores humanos ao se verem representados em imitação da vida. O real mitificado tornou-se simulacro de si mesmo.

Às vezes, com muito brilho, coreografias e encenações estereotipadas montadas em cenários de cartão, simuladores dos originais para gáudio de todos. Depois, a tecnologia levou às locações reais, e, ao tornar tudo muito próximo do real, se aperfeiçoou tanto, que até hoje dizem os maravilhados com as técnicas televisivas: Parece um cinema!

Mas o salto de qualidade esvaziou os velhos estúdios de sua magia perturbadora.

A emoção transferiu-se, nas grandes corporações multinacionalizadas, para os efeitos especiais, nos quais o interesse já não é criar um modo de vida exemplificado, didático e pretensamente virtuoso, mas uma diversão fugaz que se encerra nos extensos blocos dos créditos finais, em geral não atendidos pelos impacientes espectadores. E estes, muitas vezes, perdem um arremate de enfeite ou de significação; a menos que estejam alertados para a espera prolongada da trilha musical estendida em mais de uma faixa musical.

Naqueles tempos do cinema em Piquete (década de 1940), assistia-se ao filme em partes interrompidas, com tempo para o bobinamento da máquina de projeção. As partes circulavam entre o cinema operário e o Cassino dos Oficiais (em maiúsculas, como se fazia na época, pelas exigências hierárquicas). Uma charretinha puxada por uma mula incumbia-se do transporte das ditas partes. Demoras havia. E se fossem trocadas? Um espanto e um clamor geral. Interrupções por chuvas tempestuosas, falta de energia, e… empacamentos da mulinha, que não aceitava mudanças no itinerário, mesmo se esse tivesse algum tipo de impedimento: reforma de ponte, perigos da via carroçável ou desatinos caprichosos que não são apenas da humana forma.

Na plateia do cinema operário, impacientava-se o povo, mas discutiam-se as sequências e apostava-se nos desenlaces finais. Alguma ida ao banheiro do bar e padaria ao lado. Talvez desse tempo para um cafezinho requentado ou um “golinho” confortante. No Cassino, os intervalos eram regados a boas bebidas e regalos comestíveis bem preparados e bem servidos. O café sempre novo. Tudo servido com requintes para um público bem vestido e bem apresentado. Falava-se baixo, segundo o bom tom e a etiqueta de que os oficiais graduados eram possuidores desde sua gloriosa Academia. Argumentava-se com base em intelectualidades. Os filmes eram previamente escolhidos a dedo. Assistia-se ao que de melhor houvesse no mercado cinematográfico, antecipando-se a todas as salas valeparaibanas de exibição. Mas, também era necessário conceder algumas vantagens ao operariado: uma sessão grátis toda semana, frequência liberada aos aposentados, em todos os dias da semana e a presença de filmes de agrado popular: os religiosos (católicos) em geral, a Paixão de Cristo, na Semana Santa, e os de Mazzaropi, sempre que os houvesse disponíveis. Afinal, ninguém é de ferro. E para as crianças, as séries (a maravilhosa, de Flash Gordon) e os “cowboys”: torcia-se sempre pelo branco munido de arma de fogo contra os vilões mal-encarados e os índios estereotipados nos cabelos longos presos, cujas armas eram as machadinhas. Até que… Bem, tudo mudou.

A propósito, foi prazeroso ler uma crônica publicada por Arthur Xexéo no O Globo, sobre as sessões de cinema no Cassino, sob a denominação de A Estrela de Piquete no sopé da Mantiqueira, evocadas por ele, filho do então major Xexéo servindo na Fábrica Presidente Vargas, nos finais da década de 1950 e início de 1960. Nela, a evidência do prazer em ir ao cinema fica, sobremodo, patente. Acompanhada das memórias sensíveis representadas no imaginário do cronista.

Dóli de Castro Ferreira

Publicado no informativo O ESTAFETA, edição 99, de Abril de 2005.

Pórtico da FPV

Pórtico da FPV

Patrimônio histórico-arquitetônico de Piquete

Há setenta anos, na manhã do dia 19 de novembro de 1955, às 8h, com a presença de autoridades civis, militares e eclesiásticas, era solenemente inaugurado em Piquete o majestoso Pórtico de entrada da zona militar da Fábrica Presidente Vargas.

A inauguração, a princípio, estava marcada para o dia 15 de novembro, como registra a placa alusiva ao ato, data em que se comemora a proclamação da República. Aconteceu, porém, que no dia 8 de novembro uma crise cardíaca levou ao hospital o então Presidente da República, Café Filho. Assumiu o governo o Presidente da Câmara, Carlos Luz. No dia 11, o General Lott, Ministro da Guerra, destituiu Carlos Luz, por suspeita de golpe. Assumiu a presidência Nereu Ramos, vice-presidente do Senado.

Devido a esses acontecimentos inesperados e à expectativa do desenrolar dos fatos, a inauguração, ainda que adiada para o dia 19, aconteceu, apesar da ausência da ausência de autoridades militares convidadas.

A cerimônia teve início com discurso proferido pelo diretor da Fábrica, Cel. Edgard de Abreu e Lima. Em seguida, foi convidado o Bispo Diocesano, Dom Luiz Gonzaga Peluzzo, para descerrar a placa comemorativa, que apresenta os seguintes dizeres:

PÓRTICO

“Inaugurado em 15 de Novembro de 1955

Chefe do D.T.P, Gen. Ex. Angelo Mendes de Moraes

Sub-chefe do D.P.P. Gen.Div. Gélio de Araújo Lima

Dir. de Fabricação Gen. Altair de Queiroz

Diretor Geral – Cel. Edgard de Abreu e Lima

Diretor Técnico – Ten.Cel. Pedro Augusto Sisson da Silva Tavares

Chefe da Div. de Obras – Major Leônidas Pinto Pacca

Projeto e baixo-relevo – Professor Antônio César Dória”

Com o descerramento da placa e a bênção dada pelo Capelão da FPV, Padre Lucas Gianetti, estava inaugurado o Pórtico. Em seguida, desfilaram alunos do Departamento Educacional e soldados do Contingente de Segurança, ovacionados por grande massa popular.

O Pórtico da FPV

O Pórtico foi projetado pelo professor Antônio César Dória, lente do Departamento de Assistência Educacional da FPV, diplomado pela Escola Nacional de Belas Artes.

O cálculo das fundações e da estrutura, bem como a construção, constituiu trabalho do Major Engenheiro Construtor Leônidas Pinto Pacca. A execução dos baixos relevos foi do próprio professor Dória, auxiliado na parte de montagem e massas pelos servidores Illydio Moura da Silva e Luiz Dotta.

Apresenta o monumento quatro painéis decorativos de 5,10 x 3,20 metros cada um, dois voltados para a cidade de Piquete (face anterior) e dois, para a zona militar, simetricamente dispostos, além de três medalhões em cada uma dessas faces, localizados na parte superior do Pórtico. Os do frontão anterior reproduzem as Armas da República e as efígies do Presidente, Dr. Francisco de Paula Rodrigues Alves, e do Marechal Francisco de Paula Argolo, Ministro da Guerra (1902-1906). Na face posterior, em correspondência ao medalhão das Armas da República, encontra-se a transcrição dos dizeres da placa comemorativa da inauguração da Fábrica de Pólvora sem Fumaça, ocorrido em 15 de março de 1909.

A placa original, bela peça de bronze, foi instalada inicialmente na chaminé da Casa da Força, bem visível, ao lado da qual havia passagem normal de pedestres e veículos, em local amplo e de fácil acesso. Deixou de ser visível, posteriormente, com as construções que foram sendo levantadas. Hoje a placa se encontra no Cassino dos Oficiais, na Vila da Estrela.

Nos dois medalhões que ladeiam aquela transcrição encontram-se as reproduções de diplomas concedidos à Fábrica de Pólvora sem Fumaça por congressos internacionais.

Para facilitar a identificação dos painéis, o observador, vindo pela Avenida Luiz Arantes Júnior, deverá olhar de frente para o Pórtico. O painel da esquerda é o número 1 e o da direita, o número 2. Correspondentemente a esses, na face posterior, estão os de número 3 e 4.

Painel nº 1: Homenagem à Pátria Brasileira: uma figura de mulher com indumentária clássica (peplo), tendo à cabeça o barrete frígio, símbolo da República, empunha o pavilhão nacional e tem na mão direita um ramalhete de flores. Dezoito figuras representam o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, o clero e civis em aclamação à Pátria.

Painel nº 2: Homenagem às classe armadas: destaca-se neste painel a figura do Patrono do Exército, Duque de Caxias, em tamanho natural, a cavalo e em ação. Vê-se, ainda, o Patrono da Marinha, Almirante Tamandaré, em tamanho natural, a bordo de uma corveta, e o Patrono da Aeronáutica, Alberto Santos Dummont, surgindo de uma grande asa, tendo à retaguarda, em perspectiva, a figura de Ícaro. Um capitão dos Dragões da Independência, a cavalo, rende-lhe homenagem. Três oficiais, um de cada Arma, de espadas abatidas, prestam continência.

Painel nº 3: Alegoria à Fábrica Presidente Vargas: um Titã demolindo dois blocos de granito simboliza a força dos explosivos. À retaguarda dessa figura, uma engrenagem caracteriza a indústria. Ao fundo, vê-se a Serra da Mantiqueira com os picos dos Marins e da Meia Lua. Ladeando a passagem de pedestres, vê-se em perspectiva um trecho da FPV. Uma figura masculina simbolizando o trabalho tem na mão um malho e, à frente, uma bigorna. Simetricamente, do outro lado da mesma passagem, uma figura feminina representando a FPV empunha a flâmula do estabelecimento e ampara duas crianças simbolizando a Assistência Social que é dada aos seus servidores.

Painel nº 4: Alegoria à Técnica: coroando este painel, uma grande figura de águia está à retaguarda do vulto do renomado químico francês, Paul Vieille, inventor da pólvora sem fumaça, que se acha apoiado sobre um livro, símbolo da Ciência, tendo ao lado uma retorta e um gral. Uma torre de transmissão representa a técnica das Comunicações e Eletrônica e uma ponte em arco, a Engenharia de Construção. Uma explosão atômica, caracterizada pela silhueta de um cogumelo, e um avião a jato lembram os últimos progressos nesses setores. A alegoria ainda registra um canhão antiaéreo ladeado por dois oficiais e um tanque de guerra.

Com a inauguração do Pórtico, não só o município de Piquete passou a incorporar ao seu patrimônio artístico, arquitetônico e cultural uma obra de incontestável beleza, mas todo o Vale do Paraíba.

Nesse trabalho, o professor Dória, com sua sensibilidade, modelou episódios da história pátria. Essa não é uma obra só de Piquete, mas registro da ação militar em nossa cidade para todo o Brasil.

Notas biográficas:

Antônio César Dória nasceu aos 11 de setembro de 1903, à rua Marquês de Olinda, nº 11, no bairro do Botafogo, no Rio de Janeiro. Era o quarto filho de José César Dória e Maria Joaquina de Portugal. Cursou o Colégio Pedro II, onde se preparou para o ingresso na Escola de Belas Artes, o que ocorreu no ano de 1925, tendo sido aluno de Rodolfo Bernardelli e colega de Cândido Portinari.

Casou com Dona Guiomar César Dutra e tiveram quatro filhos.

No ano de 1942, aconteceu no Rio de Janeiro uma exposição do Exército, da qual constava uma maquete da Fábrica Presidente Vargas. Na viagem para o Rio, a maquete foi danificada. O major José Pompeu Monte, representando a Fábrica, foi até a Escola de Belas Artes a fim de contratar um artista para recuperação da mesma. Lá, foi-lhe indicado, pelo diretor da Escola, o jovem César Dória.

Após a exposição, César Dória foi convidado para trabalhar na Fábrica, em Piquete. Foi admitido na Divisão de Construção, como Operador Especializado.

A 14 de abril de 1947, foi transferido para o Departamento Educacional.

No mês de outubro de 1949, passou a ser Diretor do Ginásio Industrial da FPV. Naquele Departamento, na qualidade de educador, o professor Dória jamais poupou esforços para elevar o nome da FPV. Educou várias gerações de piquetenses.

Em 15 de março de 1961, ingressou, por mérito, no Quadro de Honra da FPV.

A 15 de maio de 1969, o Ministro do Exército outorgou-lhe a Medalha de Pacificador, como homenagem especial do Exército e pela colaboração prestada aos eventos e datas festivas da FPV, do Exército e da Pátria.

Em fevereiro de 1969, a Câmara Municipal de Piquete concedeu-lhe o título de “Cidadão Piquetense”.

Antônio César Dória faleceu em Piquete aos 26 de novembro de 1972.

Pesquisa de Antônio Carlos Monteiro Chaves

Estação Ferroviária Rodrigues Alves

Lembrança do Ramal Férreo Lorena-Bemfica

Passava da uma hora da tarde do dia 15 de setembro de 1906, quando, na Estação Ferroviária Rodrigues Alves atracou a Locomotiva Floriano Peixoto, conduzida pelo maquinista Lorival Pinto Linhares. Especialmente enviado da Central do Brasil, ele dirigia uma composição formada por um carro descoberto e dois carros de primeira classe, conduzindo o então Ministro da Guerra, Marechal Francisco de Paula Argollo, e grande número de convidados. A comitiva vinha inaugurar o ramal férreo Lorena – Bemfica, a Estação Ferroviária Rodrigues Alves e outras obras militares destinadas à fábrica de pólvora sem fumaça em construção no município.

O trem chegou como símbolo de modernidade, equipado para significar progresso e industrialização.

O evento foi uma apoteose. A estação, enfeitada, tinha a plataforma repleta de autoridades civis, militares e parcela significativa da população. Essa inauguração foi a primeira de uma série de obras do Exército que culminariam com o 15 de março de 1909 e mudariam para sempre a história de Piquete. Os principais jornais da capital federal e de São Paulo, além de representantes da imprensa valeparaibana, deram ampla cobertura a essas festividades. A Revista da Semana, do Rio de Janeiro, registrou com imagens a inauguração.

Construída à margem direita do Ribeirão Piquete, a Estação Ferroviária Rodrigues Alves chamava a atenção pela simplicidade: dois pavimentos de alvenaria de tijolo, cobertura de telhas planas, forros de madeira, soalho no pavimento superior e ladrilho no inferior, alpendre de folha de zinco ondulado, pintura em obras de esquadrias e forros. Os lambrequins que a adornavam davam-lhe um toque pitoresco. Em harmonia com a paisagem, a Estação Ferroviária Rodrigues Alves, a partir de sua inauguração, tornou-se símbolo das obras do Exército, em Piquete, e catalisadora das aspirações de inúmeros passageiros que por ela chegavam. Um cartão-postal impresso, quando de sua inauguração, registrou-a para a posteridade. Passados 100 anos daquele 15 de setembro, ao olharmos para essa fotografia, somos convidados a embarcar para uma viagem no trem da memória e resgatar um pouco daqueles tempos congelados nessa imagem.

A fotografia gravada registra no primeiro plano, de maneira clara e direta, a Estação Rodrigues Alves, sua plataforma de embarque e os trilhos do ramal ferroviário. Ao fundo, a propriedade do Coronel José Mariano, o Hotel das Palmeiras, palco de grandes acontecimentos políticos e sociais da Vila Vieira do Piquete, além do casario que se distribuía por entre as encostas e às margens da principal rua, a Américo Brasiliense, paralela ao ribeirão. Muitos, talvez alheios à importância dessa imagem, ou cansados pela pressão visual do cotidiano, não conseguirão fluir a beleza documental que nela se encerra. Uma leitura mais acurada mostra a pluralidade nela contida, pela multiplicidade dos valores sociais e culturais. Mais do que nos voltarmos para o passado, tentemos olhar, como no passado, com os olhos do fotógrafo.

Passear atento por esse cartão-postal possibilita soltar a imaginação, completando a visualização das imagens com a variedade dos conhecimentos que possuímos a seu respeito. Esse documento iconográfico raro nos permite transcender o próprio objetivo da sua criação. Diante dessa imagem, o destinatário sonha, emocionando-se, tornando-se partícipe da ventura ou aventura de quem a expede. Que cada observador seja, num recurso memorialístico, testemunha desse momento de nossa história guardado há cento e dezesseis anos junto a essa imagem.

Antônio Carlos Monteiro Chaves

Publicado no informativo O ESTAFETA, edição 130, de Setembro de 2007.

Um trenzinho que se fez saudade…

Aos ex-maquinistas do trenzinho dos operários, Luiz Vilela e Elias Xavier

Há 100 anos, no dia 15 de setembro de 1906, o Marechal Argollo, Ministro da Guerra, inaugurava, aqui em Piquete, o Ramal Férreo Lorena-Bemfica e a Estação Rodrigues Alves.

Dois jornais da cidade do Rio de Janeiro – “O Paiz” e o “Correio da Manhã” – fizeram a cobertura do evento. Segundo eles, precisamente às 13 horas e 15 minutos, um trem entrava, pela primeira vez, na estação da acanhada e pacata Vila Vieira do Piquete.

Silvos da locomotiva. Profusão de foguetes, foguetes-de-vara acesos com tições. Alvoroço de pessoas. Vivas à República, ao Exército e ao Marechal Argollo. O Hino Nacional e marchas cívicas executados pelas bandas do 12º Batalhão de Infantaria e do Colégio Salesiano São Joaquim, de Lorena.

A presença de autoridades – o Intendente Municipal, Senhor José Inocêncio Alvim Bittencourt, o Coronel José Mariano Ribeiro da Silva, o Coronel Luiz Relvas, o Barão da Bocaina… Pessoas de destaque e grande número de senhoras. Todos bem trajados, com elegância; afinal, era dia de festa, de acontecimento inusitado que seria sempre rememorado.

Grande entusiasmo da população. As principais ruas da Vila ornamentadas com palmeiras. Palmeiras também ao longo do ramal férreo. Próximo à estação, enfeitado com flores, um arco triunfal, de bambus. Bandeiras, muitas bandeiras. Fotografias, já esmaecidas e tisnadas, nos remetem àquele dia festivo, e, no embalo da imaginação, recriamos cenas e pessoas.

O Hotel das Palmeiras, residência do Coronel José Mariano, foi também palco de homenagens às autoridades. Meninas de branco – pétalas de rosas sobre os visitantes. Aclamações e vivas. Discursos. Champagne e farta mesa de doces.

A seguir, todos novamente na Estação Rodrigues Alves – inauguração oficial do ramal férreo, leitura da respectiva ata e discurso proferido pelo Tenente-coronel Teixeira Maia.

E o povo de Piquete passou a se orgulhar da sua estação e do seu trem, carinhosamente denominado “trenzinho dos operários”.

Durante 71 anos ele percorreu os caminhos de nossa história e deixou um rastro de lembranças. Esteve sempre vinculado à nossa paisagem social, a pessoas, fatos e momentos marcantes: as romarias a Aparecida, a venerando figura do Padre Juca, Nossa Senhora entronizada num andor todo de flores e filó, sinos e foguetes no silêncio das madrugadas; as festas natalinas, o trenzinho chegando de Lorena, um papai-noel na cara da locomotiva, crianças sonhando com brinquedos e guloseimas; operários cansados e sonolentos, as frontes ungidas de sacrifício…

Soube, por alguns familiares, que em 1932, conduziu nossa gente para São Paulo, entregue a cidade às mãos das tropas constitucionalistas. Malas e trouxas feitas às pressas. Três dias de viagem crivada de incertezas e cansaço. Vômito e diarreia de crianças, carência de comida e leite. Desconforto. Lágrimas. Saudade da terrinha natal.

Certa vez, eu menino, não me recordo do ano, vi o trenzinho apinhado de pessoas importantes. Um corre-corre para a estação. Getúlio Vargas em visita à Fábrica de Pólvora. Ao longo da via férrea, adultos e crianças acenavam. E o Presidente passava distribuindo sorrisos, orgulhoso da dignidade de chefe supremo da nação.

Durante muitos anos foi o trenzinho nosso único meio de transporte. Pela manhã, uma viagem até Lorena, várias paradas em duas estaçõezinhas – Coronel Barreiros e Angelina – para embarque de pessoas e do leite das fazendas para a Usina de Laticínios. À tarde, o retorno – as notícias dos jornais, os segredos das correspondências, a curiosidade dos visitantes e a alegria dos que vinham rever amigos e parentes.

Nos quintais, meninos brincavam com trenzinhos de caixas-de-fósforos, faziam-se maquinistas e imitavam os apitos da maria-fumaça.

O trajeto do trem até o Portão da Limeira, portal da Fábrica de Pólvora, tinha sabor de beleza – pequenas casas coloridas à beira-linha, quintais decorados com bananeiras, o esverdinhado dos morros, os ribeirões sempre limpos, crianças em adeuses e gritos estrangulados pelo barulho da locomotiva, cruzes de madeira rodeadas de imagens, enfeitadas com papel crepom.

Infelizmente, um dia, o querido trenzinho deixou de circular. Arrancaram os trilhos e deixaram desabar as estaçõezinhas onde ele costumava parar. Hoje, tudo não passa de fotografias.

Felizmente, a Estação Rodrigues Alves que, durante anos ao abandono, foi vítima de intempéries e pichações, ninho de ratos e morcegos, está agora reformada, salva da destruição.

E o trenzinho, que se fez saudade, correrá sempre na nossa geografia interior; poeticamente, ressuscitaremos na memória os que ajudaram a construir esta cidade e deixaram marcas indeléveis em cada um de nós.

Chico Máximo

Publicado no informativo O ESTAFETA, edição 130, de Setembro de 2006.

Igreja de São Miguel e Almas

Um acontecimento histórico

Indiscutivelmente, a antiga matriz de São Miguel é o mais expressivo trabalho comunitário de Piquete, vinculado a fatos pretéritos memoráveis, e mantém relação direta com a vida e a paisagem do município.

Sua construção, na segunda metade do século 19, sob a invocação de São Miguel, foi a célula mater de nossa emancipação político-administrativa. De valor histórico inquestionável para a cidade, é referência para todos os piquetenses.

Construção sólida em taipa de pilão, teve suas obras iniciadas em 1864 a partir da aprovação, pelo bispo de São Paulo, Dom Sebastião Pinto do Rego, de uma petição encabeçada por Joaquim Vieira e outros vários moradores do então Bairro do Piquete. A população participou da construção e, ao longo dos anos, da manutenção não apenas no aspecto religioso, mas também no material.

É sempre bom lembrar que toda construção precisa de manutenção periódica. Caso contrário, desmorona. O corpo principal da primitiva capela foi edificado em taipa. As torres, construídas com tijolos, foram concluídas em dezembro de 1891, quando o bairro já havia se emancipado de Lorena. Em 1927, a já velha igreja, devido à umidade e rachaduras nas paredes, passou por sua primeira grande reforma, tendo à frente o padre Arthur de Moura e uma comissão formada por Jacinto Pereira de Barros, José Vieira Soares, Anacleto Salomão e José Ribeiro da Silva. Em 1953, o vigário, Padre João Batista Serafim, a suas expensas promoveu outra reforma, quando foi retirado o arco de taipa que separava a nave principal da capela mor.

Nos anos de 1960, com a antiga matriz então pequena para a cidade, a atenção dos paroquianos se voltou para a edificação de uma nova matriz, que seria inaugurada em 27 de janeiro de 1970.

Esquecida e sem a devida manutenção, a taipa das paredes da antiga matriz já não mais aceitava rebocos. Tornavam-se necessárias providências.

Com a inauguração da nova matriz e a deterioração da antiga, já ameaçada de ruir, o vigário à época chegou a propor a demolição do antigo templo, alegando que com o funcionamento do novo, quaisquer despesas com a antiga igreja, quase em ruínas, seriam supérfluas. Houve resistência por parte de antigos moradores, que se organizaram em uma comissão pró reforma. Presidia essa comissão Ismael Marques de Almeida e dela também faziam parte José Rodrigues de Souza, Luiz Monteiro Vilela, Pedro Alves, Carlos Vieira Soares, Benedito Ramos Pinto, Antônio Luz Nunes, José Pereira, Leonel Gomes de Souza, Afonso Luiz Ferreira, Maria de Lourdes Ferreira, Ana Rodrigues Leal Freire e José da Silva Reis.

Após inúmeros trabalhos e campanhas para arrecadar recursos, as obras foram sendo concluídas: trocou-se todo o telhado, reforçou-se a taipa com paredes de tijolos. Portas, lustres e bancos foram trocados. Ficaram faltando, apesar dos esforços da comissão, os antigos sinos, que haviam sido transferidos para o campanário da nova matriz, para sua inauguração, e nunca mais voltaram para seu local original, conforme prometido.

No dia 1º de Janeiro de 1979, ocorreu o histórico acontecimento de reinauguração da antiga matriz, que passou a se chamar Igreja de São Miguel e Almas. Para esse evento, uma bem elaborada programação foi estabelecida. No memorável dia, às 6h, houve recitação do Angelus, às 12h recitação da Ave Maria, com repique de sinos e queima de fogos. Às 17h, ocorreu a cerimônia principal, com a concelebração solene pelo bispo diocesano Dom João Hipólito de Moraes, o cônego João Marcondes Guimarães e o pároco, Padre Alexandre. As dependências do templo foram insuficientes para abrigar o grande número de pessoas que participou da missa. Entre os muitos que vieram de outras cidades, dona Lili Couto, uma das destacadas testemunhas dos primeiros tempos do município de Piquete, especialmente convidada. Dona Lili era neta do Cel. José Mariano, um dos construtores da antiga capela de São Miguel.

Em sua mensagem, o padre João Guimarães manifestou sua admiração e estima pelo povo de Piquete e exaltou a figura da professora Leonor Guimarães, seu braço direito quando vigário da paróquia, em 1934.

O prefeito à época, José Armando de Castro Ferreira, falando em nome da comunidade, emocionou os presentes revivendo episódios de sua vida e homenageando o incansável sacristão José Chrispim de Meirelles, o “seu Zequinha”.

O padre Alexandre destacou o árduo trabalho da comissão de reforma, agradecendo a colaboração de todos.

Hoje, [42] anos após a última grande reforma, a Igreja de São Miguel e Almas, tombada pelo Conselho de Patrimônio Histórico do Município desde junho de 2002, é palco de missa às segundas-feiras, às 7h, e de todas as encomendações de nossos mortos. Algumas pessoas já se mobilizam para uma providencial nova manutenção.

Antônio Carlos Monteiro Chaves

Publicada No Informativo O ESTAFETA, edição 207 de Abril de 2014.

A construção da Capela de São Miguel no bairro do Piquete

Todos os anos, ao comemorarmos nossa emancipação político-administrativa, somos convidados a fazer uma análise histórica sobre as ações comunitárias que concorreram para o amadurecimento do processo político que resultou com nossa emancipação.

A Igreja teve papel fundamental nessas ações, pois desde o início das obras de construção da Capela, esta se tornou o centro catalisador das aspirações do povo, que passou a buscar alternativas que trouxessem melhorias para o bairro do Piquete. No entanto, nos esquecemos facilmente do passado, relicário de nossas referências. E quem não tem história não tem vida, não tem referências pessoais e herança. Como diz, sabiamente, Frei Betto, dominicano, importante pensador e escritor, “esquecer é a pior forma de fazer desaparecer. Aquilo sobre o que ninguém fala, escreve, canta ou celebra em seus ritos deixa de existir. Um homem pode morrer, mas se seus descendentes guardam a memória de sua vida, de alguma forma ele sobrevive; porém, se todos o esquecem, então ele morre definitivamente.” Assim, se deixarmos tudo e todos morrerem definitivamente, não saberemos valorizar o precioso presente, presente este que entrelaça passado e futuro no dia-a-dia das experiências.

Daí a importância de resgatarmos nossa história e preservarmos o que pelos nossos predecessores foi construído. Cabe-nos exaltar o espírito comunitário que sempre norteou nossa população.

Tomemos como exemplo, a construção da Capela de São Miguel: para cumprir os preceitos religiosos, os antigos moradores do bairro do Piquete não mediam esforços: visitavam, pelo menos uma vez ao ano, a igreja da Piedade, em Lorena ou se organizavam em romarias a Aparecida. Esta religiosidade levou os moradores a se reunirem com uma petição, em 1864, visando à ereção de uma Capela no Bairro do Piquete, que foi concebida conforme consta no primeiro Livro do Tombo da paróquia de Nossa Senhora da Piedade de Lorena, p. 86-7:

“Registro d’uma Provisão constando a ereção d’uma Capella no Bairro do Piquete, nesta Parochia”

“Dom Sebastião Pinto do Rego, por mercê de Deos da Santa Sé apostólica, Bispo de São Paulo, do Conselho de Sua Magestade o Imperador, e Commendador da Ordem de Christo, etc… etc…

Aos que esta nossa Provisão virem, saúde e Benção em o Senhor.

Fazemos saber que atendendo nos ao que por sua Petição representou Joaquim Vieira Ferreira e vários moradores do Bairro do Piquete, districto da cidade de Lorena: Havemos por bem pela prezente concedermos faculdade para que possão erigir e fundar no dito Bairro uma Capella sob a invocação de São Miguel, com tanto que fique em lugar alto e livre de humidade, e tenha ambito em roda para poder andar Procissão, sendo o lugar designado pelo Muito Reverendo Parocho, na forma da Constituição do Bispado; e na mesma Capella não se poderá celebrar o Santo Sacrifício da Missa, e os demais officios divinos sem que esteja constituído o necessário Patrimônio, e sem nova Provisão Nossa para a qual precederá informação do mesmo Reverendo Parocho, sobre a capacidade e decencia da referida Capella. Esta será aprezentada ao dito Reverendo Parocho, que a registrará no Livro do Tombo da Matriz para todo tempo constar.

Dada na Camara Episcopal de São Paulo sob o Sello de Nossas Armas, e Signal do Nosso muito Rev. Dr. Provizor e Vigário Geral, aos 20 de Dezembro de mil oitocentos e sessenta e quatro. E eu o Conego Antonio Augusto de Araujo Muniz, Escrivão da Camara Episcopal, a subscrevi.”

A autorização dependia, sempre, da existência de uma povoação. O bairro já apresentava relativo adensamento comandado pelas vias de circulação. Por sua vez, a concessão exigia que a Capela estivesse construída em lugar povoado, não ermo. Assim, os moradores prestariam a necessária ajuda para tais fins. Exigia-se um edifício elevado como símbolo de autoridade, força espiritual, cabeça e centro da comunidade. Estes foram os princípios básicos da Matriz de São Miguel de Piquete. O lugar escolhido para ereção foi o alto de uma colina, às margens da Estrada de Minas.

Toda a população, por meio de mutirões, contribuiu. Rifas, quermesses e loterias foram feitas para custear as obras. Duas lideranças políticas surgiram desses encontros: o Maj. Joaquim Vieira Teixeira Pinto e o Ten. José Mariano Ribeiro da Silva, que ocuparam lugar na Câmara de Lorena, em diferentes legislaturas, sempre buscando beneficiar a comunidade de origem. O bairro se politizava. Entre as muitas reivindicações de sua comunidade estava a elevação do Bairro à Freguesia, o que aconteceu graças à Lei Provincial no 10, de 22 de março de 1875. A partir daí a Freguesia iniciou seu crescimento e articulação política, que culminou com 15 de junho de 1891.

Antônio Carlos Monteiro Chaves

Publicado no informativo O ESTAFETA, edição 41, de Junho de 2000.

Representação de São Miguel Arcanjo
Representação de São Miguel Arcanjo

A devoção a São Miguel e Almas

Um traço marcante da espiritualidade de nós, piquetenses, que vem dos primórdios de nosso povoamento, é a devoção a São Miguel Arcanjo, árbitro das almas do purgatório.

A devoção a São Miguel foi muito difundida na América portuguesa, personificando a luta entre o Bem e o Mal. Chegou ao vale do Paraíba com os primeiros colonizadores e se difundiu. Essa devoção fez com que, no início dos setecentos, a 6 de maio de 1719, fosse instituída na Freguesia de Nossa Senhora da Piedade (Lorena) a Irmandade de São Miguel, cujo compromisso foi aprovado por D. Francisco de São Jeronymo, bispo diocesano do Rio de Janeiro. Em 1852, houve reforma desse compromisso. Por essa época, a devoção a São Miguel Arcanjo já havia chegado ao bairro lorenense do Piquete, cuja população, para cumprir os preceitos religiosos, se deslocava até a Vila de Lorena. Assim, os piquetenses passaram a pleitear junto às autoridades eclesiásticas autorização para construção de uma capela no bairro. Em 1864, por meio de uma petição conseguem de D. Sebastião Pinto do Rego, bispo de São Paulo, provisão que autorizava a construção de uma capela no bairro, sob a invocação de São Miguel, com a condição de que deveria se localizar em lugar alto e livre de umidade, e que tivesse espaço ao redor para procissões. O local escolhido foi uma colina às margens do Caminho de Minas, junto a um adensamento populacional. Os moradores passaram, a partir de então, a se reunir, discutindo a melhor maneira para execução das obras. Tomaram a frente dos trabalhos o Ten. Joaquim Vieira Teixeira Pinto e José Mariano Ribeiro da Silva, apoiados por moradores dos quarteirões: Posses, Ronco, Itabaquara Acima, Ribeirão Vermelho, Serra do Itajubá, Serra dos Marins, Passa Quatro, Leais, Gonçalves e Godoy.

A força aglutinadora da Fé e a devoção a São Miguel impulsionavam a todos que sonhavam ver a capela de seu padroeiro construída. Escravos taipeiros passaram a pilar as grossas paredes de terra da capela. À medida que as paredes cresciam, aumentava a expectativa dos moradores para com o término das obras. Ao mesmo tempo, articulava-se a elevação do bairro à condição de Freguesia, o que veio a acontecer em 22 de março de 1875, quando a igreja se encontrava quase pronta: simples e pobre, sem adornos, sem as torres laterais. Nesse mesmo ano, construiu-se o cemitério e as cerimônias fúnebres passaram a ser realizadas na Capela, que, mesmo sem padre colado, aglutinava a população para orações e reuniões comunitárias. Em 7 de outubro de 1888 criou-se a Paróquia de São Miguel do Piquete, sendo nomeado seu primeiro pároco o Pe. Francisco Fillipo.

A população aspirava à emancipação do bairro. Era preciso, então, uma matriz. O Comendador Custódio Vieira da Silva, proprietário da Fazenda da Estrela, construiu, nas proximidades da igreja, uma olaria para a construção das torres laterais. Em 15 de junho de 1891 ocorreu a emancipação político-administrativa do bairro e na Matriz foram realizadas cerimônias solenes. No Natal desse mesmo ano concluíram-se as torres.

A antiga Matriz de São Miguel é para os piquetenses o seu maior símbolo. Todos os eventos significativos do município ocorreram nela, ou nas suas adjacências. Ela faz-se presente no acervo iconográfico da Fundação Christiano Rosa. Nela nossas tradições religiosas foram intensamente fotografadas: procissões, casamentos, batizados, primeiras comunhões e situações de convivência propiciadas pela Igreja. Em cada fotografia, resgatam-se as micro histórias pertinentes a ela e a muito de nossa memória.

A Capela de São Miguel e Almas, nossa antiga matriz, foi, no passado, e continua, no presente, nossa maior referência histórico-religiosa. Por sua importância, foi tombada pelo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, em 2002.

Antônio Carlos Monteiro Chaves

Publicado no informativo O ESTAFETA, Edição 261, de outubro de 2018.

Igreja Matriz de São Miguel

Igreja Matriz da Paróquia São Miguel Arcanjo, em Piquete, SP, elevada à condição de Santuário Diocesano no dia 29 de Setembro de 2022.

Pároco e Reitor do Santuário: Pe. Fernando Sampaio.

Lançamento da Pedra Fundamental da Nova Matriz

No final dos anos 30, um amplo projeto de ampliação da Fábrica de Pólvora de Piquete levou à contratação de grande número de operários. Consequentemente, houve crescimento de nossa população. Iniciou-se uma política social de assistência aos funcionários e a construção de vilas operárias. Cresceu a cidade, com mudança na geografia urbana e dilatação de seu perímetro, que se aproximou da Mantiqueira.

A Matriz de São Miguel, ao redor da qual o primitivo núcleo urbano se desenvolveu, tornou-se pequena.

O crescente progresso e o aumento da população católica exigiam a construção de uma nova Matriz que fosse, ao mesmo tempo, demonstração da fé dos moradores e atestado da força religiosa do povo.

Assim, em junho de 1960, com autorização da Cúria Diocesana, foi adquirido um amplo terreno na Rua Cel. Luiz Relvas, região central da cidade, para a construção da nova igreja. Em outubro desse mesmo ano, quando da visita pastoral do 3o Bispo de Lorena, D. José Melhado Campos, à Paróquia de São Miguel, a ideia da nova matriz era ventilada a toda hora. Foi elaborado para a ocasião um extenso programa do qual constou, além de crismas e ofícios religiosos, uma visita à parte social da FPV e às obras da sonhada Santa Casa. No edifício da prefeitura instalou-se a Sessão Solene, à qual compareceram autoridades civis, militares e a comunidade. O presidente da Câmara, Ver. Alony O. Soares, conduziu os trabalhos. O Ver. Prof. José Armando de C. Ferreira saudou o homenageado. Após, falou o prefeito Luiz Vieira Soares, assumindo, a seguir, a tribuna, D. José Melhado Campos, que proferiu grande peça oratória, concitando todos a trabalhar de mãos dadas pelo engrandecimento de Piquete e da Religião, tudo pelo bem-estar do povo.

Encerrando a Sessão, à saída do edifício, o vereador Gabriel Benfica Nunes falou ao bispo do desejo e disposição de todos para ereção da nova matriz. Estabeleceu-se, logo, uma “mesa redonda”, demonstrando D. Melhado Campos sua grande compreensão e aquiescência.

Ficou então deliberado o lançamento da pedra fundamental para o domingo, dia 9 de outubro, às 11h. Essa solenidade contou com a presença de inúmeras pessoas e autoridades civis, militares e eclesiásticas. Nessa ocasião, foi iniciada a campanha, por um grupo de senhoras, para se angariar tijolos e outros donativos a fim de se levar a bom êxito as obras do novo templo católico. Sobre o acontecimento falaram o professor João Vieira Soares e o Cônego Gabriel Hiran, encerrando com palavras de estímulo o bispo diocesano. Essa visita encheu de ânimo os piquetenses. O assunto na cidade passou a ser a futura matriz, e toda a população se mobilizou.

No mês seguinte, no dia 20, reuniu-se a comissão de senhoras encarregadas da campanha para a construção da igreja. Foi constituída tesoureira da comissão Dona Carmem Amoroso, que prestou contas do total já arrecadado no livro de ouro, isto é, Cr$ 157.000,00. Esse total correspondia às doações dos senhores Oswaldo Coelho Nunes, Expedito Ferreira, José Bertolino Ribeiro, Vicente Freitas, Brigadeiro Ovídio Beraldo, Ismael Marque, Osvaldo Beraldo, Diocesano Ramos, Dr. José Amoroso, Dr. Vitório Amoroso, Antônio Teixeira Neto, Arthur Alves, José Gomes Siqueira, Ari de Melo Franco, José Leite da Silva e José Crispim de Meireles. Foram estas as primeiras contribuições para as obras. Ao término da reunião, o pároco de Piquete, Pe. Gabriel Hiran, agradeceu o eficiente trabalho da comissão e a boa vontade dos que haviam colaborado para essa grande obra. A partir daí, num trabalho constante, que teve à frente a carismática figura do Dr. José Amoroso, a população se empenhava cada vez mais para a construção de nossa nova matriz.

A fundação da Paróquia São Miguel, em Piquete

A Paróquia de São Miguel completa 130 anos. Conhecer sua história e os caminhos percorridos por seus paroquianos ao longo desses anos leva-nos às origens de Piquete, à primeiras famílias que se instalaram por estas terras e ao processo de evangelização que se deu entre os moradores e concorreu para que se mantivessem unidos por meio das palavras de Cristo.

Para conhecer a história é preciso recorrer a documentos antigos. Desde os primórdios de nossa colonização, a Igreja teve papel fundamental como guardiã de memórias. Os livros de tombo das igrejas matrizes são verdadeiros relicários de registros de dados históricos. Foi ao redor das capelas que muitos lugarejos surgiram. Até a República, um núcleo populacional, para ser constituído como Vila e receber autonomia, teria necessariamente que passar pelas etapas de aglomerado, bairro e freguesia. Além disso, devia ter um órgão fiscal provedor das necessidades para controle do movimento de cargas e mercadorias – no caso de Piquete, o registro ou barreira. Também deveria contar com uma capela curada, com padre fixo e devidamente provisionado, isto é, registrado no órgão eclesiástico hierarquicamente superior – no nosso caso, a Diocese de São Paulo. Era a Igreja que, por meio da Paróquia, dirimia as questões de âmbito público e privado.

As terras que deram origem a Piquete pertenciam a Guaratinguetá. Eram, até o final do século 18, habitadas pelo povo Puri. Nômades, esses índios deixaram trilhas abertas que cruzavam a Mantiqueira, a qual transpunham atrás de caça e pinhão.

Com a descoberta do ouro no Sertão dos Cataguazes, em 1693, cresceu o movimento sertanista no Vale do Paraíba. Inúmeras outras minas de ouro são descobertas. Por volta de 1703, a de Itajubá, próxima ao rio Santo Antônio, na vertente mineira da Mantiqueira. Em terras então guaratinguetaenses foi erguida, por volta de 1705, uma capela de Nossa Senhora da Piedade, junto ao porto de Guaypacaré. O adensamento populacional em torno dessa capela concorreu para que ela fosse elevada à condição de Freguesia em 1718. As terras piquetenses passaram, então, a pertencer à Vila de Guaypacaré. Em 1730, Antônio Domingues Pereira, um dos fregueses dessa igreja ganhou uma sesmaria na margem esquerda do Paraíba, próxima à Mantiqueira, na região da barra dos ribeirões Embaú, atual Rio Piquete, e Itabaquara. Aí se instalou com sua mulher e criaram uma família numerosa, que se tornaria uma das mais importantes de Lorena. Outras sesmarias foram doadas e novas famílias foram instaladas formando roças de subsistência.

Em 1741, Lázaro Fernandes, que vivia afazendado na margem esquerda do Paraíba, aproveitando uma antiga trilha dos Puris, abriu um caminho que, partindo de suas terras na Freguesia da Piedade, atingia o arraial serrano de Soledade do Itajubá, atual Delfim Moreira.

Com o aumento do trânsito por esse caminho, os Puris foram cada vez mais rechaçados para a Mantiqueira e Sul de Minas.

Em dezembro de 1770, desejou o Capitão-General de São Paulo “formar uma aldeia” com os Puris com o intuito de civilizá-los, doutriná-los na fé cristã e vesti-los com os “panos da honestidade” para que “fizessem nova entrada levando uma índia velha para que ela persuadisse todos os índios do seu povo que descessem e que formassem uma aldeia com um pároco”. Assim foram atraídos para o convívio civilizado dos brancos numerosos indígenas designados “administrados”, mas que, de fato, eram servos dos conquistadores do Hepacaré.

Arrancados de seu habitat, submetidos às estranhas normas de trabalho e costumes, esse índios, desajustados, não encontraram condições favoráveis para a sobrevivência. Perdiam o gosto pela vida, tornavam-se apáticos e, em grande parte, definhavam até que a morte os libertasse.

O caminho aberto em 1741, que passava por onde hoje se encontra Piquete, era para abastecimento das Minas de Itajubá e tornou-se, com o passar dos anos, responsável pelo intercâmbio comercial entre as províncias de São Paulo e Minas Gerais. Por ele foi gradativamente aumentando o tráfego de tropeiros, boiadeiros, mascates que se arranchavam ao longo da estrada, próximo ao Registro (posto fiscal) aí instalado, em 1764, para cobrança fiscal e evitar o desvio do ouro vindo das Minas Gerais. Muitos desses tropeiros se fixaram às margens da estrada, tornando-se pioneiros no processo de povoamento na região.

Surgiram casas de vendas e negócios e os produtos de suas roças passaram a servir para troca com as tropas que vinham de Minas ou dos portos de Mambucaba e Parati.

Esse agrupamento humano deu origem ao Bairro do Piquete, que teve sua população aumentada com a chegada da cultura cafeeira à região.

Houve um aumento da população escrava, necessária para trabalhar a lavoura e novos povoadores fixaram-se ao longo do caminho, com predomínio de famílias mineiras.

A religiosidade dos moradores era grande. Não havia pouso de tropeiros sem uma capelinha ou oratório. E a proximidade do Bairro do Piquete com a Capela de Nossa Senhora Aparecida suscitava a vinda de tropas e romarias que aqui se arranchavam.

Esses romeiros, vindos de povoações do Sul de Minas, formavam comitivas e vinham de longe, somando-se ao grupo pessoas de diferentes paragens: marchavam sob sol, chuva, sofrendo nas passagens dos rios ou na aspereza das subidas mantiqueiras, impulsionados pela fé.

Essa religiosidade levou os moradores, em 1864, a se reunirem através de uma petição, encabeçada por Joaquim Vieira Teixeira Pinto, visando à ereção de uma Capela no Piquete sob a invocação de São Miguel, o que foi concedido por Dom Sebastião Pinto do Rego, bispo de São Paulo.

Conseguida a concessão para a construção da Capela, não era permitido erguê-la em lugar ermo e despovoado, o que evidencia um adensamento populacional do Bairro.

A autorização dependia, sempre, da existência de uma povoação, pois, sem a ajuda dos moradores, era impossível levantar uma capela.

Com as obras de construção em andamento, esta passou a ser local de encontros sociais e centro aglutinador das aspirações dos moradores. Nascia o espírito comunitário na população, que discutia problemas comuns e passavam a reivindicar melhoria e progresso para o Bairro.

A comunidade passou a se articular visando ao crescimento e à autonomia política. O primeiro passo dado foi a elevação do Bairro à condição de Freguesia, o que ocorreu em 22 de março de 1875.

Entre os moradores, três lideranças políticas, o major Joaquim Vieira Teixeira Pinto, seu irmão, Custódio Vieira da Silva, e o tenente José Mariano Ribeiro da Silva, estiveram à frente das obras de construção da igreja e na defesa dos anseios da comunidade piquetense na Câmara de Lorena. Custódio Vieira foi quem doou a pequena imagem de São Miguel, em madeira, para o altar mor da Capela. Por volta de 1886, a Igreja estava construída e já contava com todos os paramentos litúrgicos e alfaias, mas não tinha padre colado, apesar dos inúmeros pedidos da comunidade à Diocese. Um novo abaixo assinado com mais de cem assinaturas foi encaminhado e a população finalmente atendida.

Vimos, anteriormente, que durante o Império, devido à estreita ligação entre a Igreja Católica e o Estado, a Freguesia tinha, além de sua condição eclesiástica, a jurídica frente ao poder civil. E era este poder civil que traçava suas divisas territoriais e mantinha sua sede na Capela, tornando-a adstrita às autoridades de Lorena. Para a Freguesia foi adotado o nome do padroeiro, São Miguel.

Em 7 de outubro de 1888, tornamo-nos Paróquia e já em 1º de novembro, com grande recepção popular tomou posse nosso primeiro vigário, padre Francisco Fillipo, que, infelizmente, logo foi embora. Transferiu-se para a igreja de Santo Antônio, em Machado, no Sul de Minas Gerais.

A população aspirava à emancipação do Bairro. Era preciso, então, uma matriz. O comendador Custódio Vieira da Silva construiu, nas proximidades da igreja, uma olaria para fornecer tijolos para as torres laterais. Em maio de 1891, ocorreu, finalmente, a emancipação político-administrativa do Bairro do Piquete, e a 15 de junho de 1891 tomaram posse os Intendentes da nova Vila Vieira do Piquete. No Natal desse mesmo ano, foram concluídas as torres da igreja.

Quando de sua emancipação, a Vila era muito pequena e pobre. Sua população urbana não ia além de seiscentas pessoas, com pouco mais de cento e vinte casas localizadas próximo à igreja Matriz. “A pobreza do lugar não permitia a vinda de vigário, porque nenhum sacerdote poderia aqui viver por falta de recursos pecuniários que provessem sua subsistência, não obstante ser a população devota e muito religiosa e concorrer particularmente para dar de comer ao vigário”.

A Igreja Matriz, apesar da ausência de padre, sempre foi o centro espiritual de Piquete. Por outro lado, o catolicismo popular sustentava-se autonomamente.

Sem o apoio doutrinal, passou a ocupar a primazia na vida religiosa do povo o culto dos santos. Essa prática era fortalecida por uma antiga tradição e desenvolvia-se pelas famílias nas casas, pelas comunidades de vizinhança, nas capelas e nas festas e quermesses, aos santos de devoção (São Miguel, São Sebastião, Santa Cruz, São José, São Benedito, São Bom Jesus etc).

Desde a ida do padre Francisco Filippo, em 1890, não tivemos padre fixo na paróquia. A chegada da congregação salesiana a Lorena fez com que esses religiosos dessem assistência espiritual esporádica à Paróquia de São Miguel. Vez ou outra, um padre redentorista vinha em missão assistir aos paroquianos. Na chegada do ano de 1900, o famoso missionário Pe. Bartolomeu Tadei, vem pregar em Piquete, difundir o culto ao Sagrado Coração de Jesus e funda o Apostolado da Oração. Num trabalho de mutirão com a comunidade, instala, no morro em frente à Matriz, um santo cruzeiro, como marca da chegada do novo século.

Durante anos, a paróquia de São Miguel esteve anexada ora à estola do Embaú, ora à de Lorena, quando éramos visitados esporadicamente por religiosos. O padre que por mais tempo permaneceu assistindo aos paroquianos foi José Arthur de Moura, vigário de Lorena. A ele a Paróquia deve a grande reforma, em 1928, da Matriz, que se encontrava com sua taipa e o telhado comprometidos.

Padre definitivo só tivemos a partir de 3 de fevereiro de 1934, quando o padre João Marcondes Guimarães tomou posse da paróquia de Piquete. Com a chegada do padre João, aos poucos foi crescendo a espiritualidade do povo e começaram a florescer as associações religiosas (Congregação Mariana, Pia União das Filhas de Maria, Apostolado da Oração, Associação de São José, Irmandade de São Benedito, Cruzada Eucarística Infantil), além do grande incremento das obras assistenciais e de caridade. Crescia, também, a catequese na igreja Matriz, nas capelas urbanas e nos bairros rurais.

O substituto do padre João, padre Oswaldo Bindão, continuou o belo trabalho de seu antecessor. Fez com que a seara, já cultivada, produzisse colheitas cada vez mais abundantes, com maior presença e participação dos fieis nos trabalhos comunitários. Fundou o jornal A Ordem, “dedicado aos interesses sociais e religiosos de Piquete”. Mais tarde o jornal passou a ser o órgão oficial da Diocese de Lorena. Depois dele, muitos outros sacerdotes dirigiram a nossa paróquia: Pe. Septímio, Pe. José Braz, Pe. Eufrázio, Pe. Melquíades, Pe. Mathias, Pe. Juca, Pe. João Hipólito (que foi Bispo Diocesano de Lorena), Pe. João Batista, Pe. Hiran, os irmãos Pe. Joaquim e Pe. José, Pe. Pedro, Pe. Alexandre, Pe. Tarcísio, Pe. Luiz Carlos, Pe. Cícero, Pe. Lázaro, Pe. João Bosco e, atualmente, Pe. Fernando Sampaio.

Não podemos nos esquecer da grande contribuição das mulheres no processo de evangelização: professora Leonor Guimarães, Nair Porfírio, Maria de Lourdes Ferreira (dona Mariquinha), Ester Vieira Soares (irmã Maria Adelaide do Precioso Sangue), dona Emília Marques de Almeida, Maria Lucas e tantas outras…
Em 1948 chegaram as Filhas de Maria Auxiliadora (as Irmãs Salesianas), que, por anos, trabalharam evangelizando crianças e minimizando as dores física e espiritual dos piquetenses. As Irmãs mantiveram por vários anos o orfanato Madre Maria Mazzarelo. Obra salesiana mantida em Piquete há mais de cinquenta anos é o Oratório São Domingos Sávio.

Grande, ainda, foi o trabalho de muitos homens, legítimos exemplos de piedade cristã, que devotaram parte de suas vidas às obras da Igreja: José Vieira Soares, José Chrispim de Meireles (Zequinha Meireles), Joaquim Sacristão, Salviano, Décio Guimarães, Joaquim Vaz, João Ramos e outros…
Ao comemorarmos os 130 anos da Paróquia de São Miguel, como parte de um processo contínuo de evangelização, devemos resgatar e preservar as tradições e a cultura popular, ir ao encontro de nossas raízes, pois a evangelização só se dá com o diálogo entre o evangelizador e a comunidade detentora dessas tradições e da cultura. Nesse intercâmbio, o Evangelho é acolhido no cotidiano da vida do povo, de modo que ele possa “expressar sua experiência de fé em sua própria cultura”. É a “inculturação”.

Daí a importância de resgatarmos em nossas festas religiosas o seu lado popular folclórico. Além das procissões, as quermesses com seus festeiros, leilões, bandas de música… Essas festas sempre fizeram parte da “alma piquetense”.

Se quisermos transformar a sociedade de Piquete, com mais amor, paz e vida plena, e acabarmos com a violência e as injustiças sociais, é preciso que arregacemos as mangas, deixando de lado nosso imobilismo, e comecemos a participar efetivamente em prol de uma sociedade mais justa e fraterna.

Como diz São Tiago no capítulo 2, versículo 26, “A fé sem obras é morta”. Hoje, mais do que nunca, temos que traduzir a nossa fé em ações concretas.

Pesquisa de Antônio Carlos Monteiro Chaves

Textos publicados no informativo O ESTAFETA, Edição 261, de outubro de 2018, comemorativa dos 130 anos da Paróquia São Miguel.

A Matriz de São Miguel

Não tem como escapar: quem visita Piquete, ao percorrer as ruas da cidade sempre volta o olhar para a Matriz de São Miguel Arcanjo. Muitas fotos são tiradas para registrar essa construção, seus vitrais e o campanário que se destacam na paisagem. Construção dos anos 60, o projeto do arquiteto Prometheu da Silveira, seu idealizador, chama a atenção pelas linhas arrojadas, com toques de ousadia. Quando sua maquete foi apresentada para apreciação da comunidade piquetense, tornou-se alvo de discussão entre alguns paroquianos que não a aprovavam por achá-la moderna demais. No entanto, com o passar do tempo, a nova igreja caiu no agrado da população e está aí, sem nenhuma “rival” na região no que diz respeito à arquitetura.

Desde os anos 40, a população de Piquete almejava a construção de uma nova igreja matriz. A obra viria substituir a antiga, do século XIX, que já não oferecia condições para abrigar o crescente número de fiéis. Paróquia pobre, foi graças ao esforço, generosidade e trabalho dos fiéis que se comprou um terreno para sua edificação.

Em 1960, o arquiteto Prometheu da Silveira, em visita a Piquete, foi abordado no Cassino dos Oficiais, na Vila da Estrela, por um grupo liderado pelo Dr. José Amoroso, que lhe pediu para projetar uma nova igreja matriz para a cidade.

Poucas vezes um profissional recém-formado teve oportunidade de executar um projeto tão importante para uma comunidade. Após conhecer o terreno adquirido para a obra e de posse das plantas do lugar, propôs trabalhar sem ônus para a comunidade. A forte imagem que lhe ficara quando da visita ao terreno, as condições topográficas do lugar e os significados culturais e simbólicos da religião católica determinaram o desenho do edifício: um tetraedro (poliedro regular, em forma de pirâmide, com quatro faces triangulares iguais). A planta do terreno, também triangular, dominada pelo número três, místico por sua conotação religiosa: fé, esperança e caridade – Pai, Filho e Espírito Santo.

Os primeiros estudos do conjunto – matriz e casa paroquial – foram apresentados em Piquete e aprovados pelo bispo diocesano Dom José Melhado de Campos. A disposição do terreno permitiu a implantação de uma praça ampla e fronteiriça ao templo, com dois acessos: pela Rua Coronel Luiz Relvas e pela Avenida 15 de Março, com entrada ao lado do Pórtico da FPV. O desenvolvimento do projeto se processou buscando atender ao imperativo das normas a que um edifício religioso deve satisfazer, bem como às implicações das acomodações da Casa Paroquial, como residência do pároco, e da escola primária que seria implantada, conforme solicitação da Comissão Construtora da Matriz.

A estrutura dominante – vigas convergentes no vértice do tetraedro – e as interpretações dos planos da cobertura e das faces verticais do sólido induzem a atenção para o alto; a simplicidade da ornamentação – a cruz, símbolo do sacrifício de Jesus, o altar em mármore em forma de cálice, o sacrário com a lâmpada votiva, presença constante d’Ele, e a imagem de São Miguel, escultura do professor César Dória, formam um conjunto harmônico, de leitura simples e marcante para os fiéis. O fundo negro entonado do azul dos vitrais cria a atmosfera propícia à introspecção e ao encontro em cada participante da liturgia com sua fé.

O arquiteto Prometheu da Silveira não pôde acompanhar a construção desse templo. A tarefa coube ao engenheiro militar major Pitta Xavier, que fez algumas modificações no projeto original em função de imposições do Concílio Vaticano II (1962-1965). A recomendação era para que os templos evitassem excessos de decoração e pompa. Com essa maior liberdade, a arquitetura moderna religiosa foi aceita totalmente na década de 70. O projeto do arquiteto Prometheu da Silveira estava afinado com a orientação da Santa Sé.

Para a edificação da nova igreja matriz de São Miguel Arcanjo houve grande mobilização dos paroquianos. Dessa forma, o templo foi erguido em tempo recorde. Foram muitas quermesses, rifas, carnês e doações. Inaugurada em janeiro de 1970, a nova matriz tornou-se patrimônio arquitetônico referencial de Piquete. É testemunha da história e de sua importância em nossa vida. É um bem espiritual, cultural e social, cujos valores são insubstituíveis.

Antônio Carlos Monteiro Chaves

Publicado no informativo O ESTAFETA, edição 164, de Setembro de 2010

Residência da Família Relvas

Residência do casal Tenente Coronel Luiz Francisco Relvas e Mariana Domiciana de Castro, situada à margem direita da antiga estrada Lorena – Itajubá. A casa abrigou um grande armazém.

Em terreno contíguo ao citado estabelecimento comercial erguia-se um movimentado rancho para tropeiros. O coronel Relvas vendeu o negócio para dois portugueses: Maximiano Diniz de Oliveira, que havia emigrado para o Brasil com 14 anos de idade, e Manoel Ribeiro, vindo do Rio de Janeiro. Foram seus sucessores Joaquim de Castro e José Edmundo Cidade Pfeil.

Obs: o empório Castro & Pfeil vendia de tudo: artigos de seleiros, ferragens, materiais de construção (inclusive cal e telhas), forragens, armarinhos e secos e molhados. Na década de 1930, ao lado da casa, como se pode observar na foto 01, foi colocada a primeira bomba para abastecimento de combustível da cidade.

Atualmente, é o último remanescente de construção urbana do século 19 no município e pertence à família de Gabriel Benfica.

Mariana Relvas

Mariana Domiciana de Castro nasceu na Fazenda da Limeira, em 1868, grande propriedade agrícola produtora de café em Piquete. Era a filha mais velha do casal Auzelino Monteiro de Castro e Maria Domiciana Vieira da Silva Castro, que teve outros três filhos: Antônio, Maria Domiciana e Francisco.

Mariana trazia na sua herança genética, do lado paterno, as referências do clã iniciado por Antônio Domingues Pereira, antigo povoador da Vila de Lorena e primeiro sesmeiro em terras piquetenses. Pelo lado materno, descendia de Francisco Vieira da Silva, tropeiro e grande produtor de fumo em sua propriedade, a Fazenda da Barra, cuja sede ainda resiste no município de Delfim Moreira, MG. Seu avô, Francisco Vieira da Silva, era grande latifundiário, com terras nas vertentes paulista e mineira da Serra da Mantiqueira. Seus tios tornaram-se fazendeiros de café no Bairro do Piquete, e dois deles – Joaquim Vieira Teixeira Pinto e o comendador Custódio Vieira da Silva – se destacaram na política e foram os principais responsáveis pela emancipação desse bairro, em 1891.

Em 1874, sua mãe, Maria Domiciana Vieira de Castro, faleceu em decorrência de complicações no puerpério, deixando os filhos ainda pequenos – Mariana, com 6 anos; Antônio, com 4; Maria, com 2, e Francisco, com 45 dias. Em seu inventário, além da Fazenda da Limeira, que recebera como dote por ocasião do casamento, deixou grandes extensões de terras com cafezais, além de uma residência em Piquete cujas referências deixam claro ser grande e luxuosa. São arrolados, ainda, 35 escravos, sendo 11 africanos de nação, 24 crioulos e 4 ingênuos.

Apesar da ausência da mãe, D. Mariana e a irmã foram criadas, educadas e bem instruídas nas prendas domésticas. Em 8 de janeiro de 1884, no oratório particular da Fazenda da Limeira, casou-se com Luiz Francisco Relvas. Foram testemunha desse enlace seu tio, o comendador Custódio Vieira da Silva, e o doutor Antônio Rodrigues de Azevedo, futuro Barão de Santa Eulália. Luiz Relvas era português, nascido em Villarinho do Bairro, em 6 de outubro de 1864. Comprou do sogro a Fazenda da Limeira e também a casa referenciada no testamento da sogra, onde residiu por toda a vida. Manteve grande comércio em Piquete e seu estabelecimento foi, por muito tempo, o maior do município. Situado à margem direita da estrada Lorena – Itajubá, a residência de Relvas e Mariana, onde também se localizava o estabelecimento comercial, ficava próximo a uma antiga sede de fazenda que havia pertencido a Joaquim Vieira Teixeira Pinto, também adquirida pelo casal. Essa casa sede, entre 1913 e 1939, foi alugada para abrigar o Grupo Escolar de Piquete.

O estabelecimento do coronel Relvas, além dos artigos secos e molhados, contemplava, ainda, uma loja de armarinhos e uma seção de materiais agrícolas, com peças de selaria. Em terreno contíguo erguia-se um bem montado rancho para tropeiros. Diariamente, caravanas de animais de carga, provenientes de Minas Gerais, chegavam e descarregavam suas mercadorias. Às sextas-feiras e sábados, arranchavam todas as semanas, entre dez e doze tropas, compostas, cada uma delas, por mais de uma dezena de muares, que transportavam produtos do e para o sul de Minas.

Relvas foi eleito vereador em 1895. Em 30 de julho do mesmo ano, assume a Intendência Municipal da Vila Vieira do Piquete. Em 1898 é reeleito vereador, sendo Presidente da Câmara. Permaneceu por toda sua vida política filiado ao Partido Republicano Paulista.

Após a morte do Coronel Relvas, em 5 de maio de 1924, os negócios foram administrados pelos portugueses Manuel Ribeiro e José Paz. Mais tarde, a condução desses negócios passou para a firma “Castro & Pfeil”, constituída por Joaquim de Castro (Joca), sobrinho de D. Mariana, e seu sócio e cunhado, José Edmundo Cidade Pfeil, casado com D. Lourdes de Castro. Enquanto residiu em Piquete, D. Mariana, tradicionalmente levava, em uma bandeja de prata, hortênsias – as preferidas de Relvas – ao túmulo do marido, em sinal de sua eterna dedicação – essa história foi-nos contada por Maura Mineiro, que acompanhava D. Mariana ao cemitério. D. Maura e sua mãe, afilhada de D. Mariana, nasceram, ambas, na Fazenda da Limeira.

Mariana Relvas sempre foi muito unida à irmã, Maria Domiciana de Castro, casada com o primo, Auzelino de Castro. Esse casal teve oito filhos e, como D. Mariana não teve descendentes, dedicou grande atenção aos sobrinhos, em especial à Maria José de Castro (Mazeca) e Auselino de Castro.

Muito religiosa, D. Mariana sempre colaborou com as obras assistenciais da Igreja católica. A pobre paróquia de São Miguel, de Piquete, sempre careceu do apoio dos paroquianos e D. Mariana colaborava com ofertas generosas. No livro do tombo da Matriz está registrado, no ano de 1934, uma doação sua de uma imagem de São Miguel Arcanjo, padroeiro da cidade, adquirida no Rio de Janeiro. A imagem tradicional do altar havia sido doada por seu tio, Custódio Vieira, quando da criação da freguesia, em 1875. Coube a ele e a Joaquim Vieira Teixeira Pinto grande parte da construção dessa matriz. Nesse mesmo ano de 1934, doou uma “cortina adamascada” roxa, de “alto custo”, a ser utilizada à entrada da igreja durante a Semana Santa. Coube a ela, também, a construção das primeiras cinco casas da Vila Vicentina, de Piquete, em 1940, e, ainda, a doação do terreno onde se acha instalado o Santo Cruzeiro da cidade, em uma colina em frente à igreja matriz da época.

Consultando os livros de casamentos e batizados da paróquia de São Miguel, encontra-se grande número de afilhados do coronel Relvas e de D. Mariana, o que evidencia o grande carinho a eles dedicado pela população piquetense. Da atual zona urbana de Piquete, muitos bairros foram construídos em terrenos que pertenceram ao casal.

Mariana Relvas faleceu em Lorena, na década de 1940.

Pesquisa de Antônio Carlos Monteiro Chaves